Cinco décadas após seu lançamento (atualmente disponível no Prime Video) Network, conhecido no Brasil como Rede de Intrigas, permanece inquietantemente vivo. O filme que parecia exagerado ao retratar o sensacionalismo televisivo e a manipulação corporativa revelou-se, com o passar dos anos, menos uma crítica e mais um aviso sobre o futuro da comunicação e da própria sociedade.
A cena mais lembrada continua devastadora, com o apresentador Howard Beale, interpretado por Peter Finch, abandonando o tom protocolar do telejornal para convocar o público a abrir as janelas e gritar sua indignação coletiva: “Estou puto da vida e não vou aguentar mais isso!”. O momento, que parecia uma explosão ficcional de desespero nos anos 1970, tornou-se símbolo permanente da relação entre mídia, frustração social e espetáculo.
Quando a televisão deixou de informar para entreter
Dirigido por Sidney Lumet e escrito por Paddy Chayefsky, o longa nasceu da experiência direta de seus criadores com os bastidores da televisão. Ambos enxergavam o filme além de uma sátira, e, sim, como “reportagem”. Uma observação crua de um sistema que já começava a transformar notícias em entretenimento.
Na trama, o colapso emocional de Beale vira produto televisivo nas mãos da executiva ambiciosa Diane Christensen, vivida por Faye Dunaway. O telejornal abandona o jornalismo tradicional e se converte em espetáculo sensacionalista, guiado por audiência, interesses corporativos e pela exploração da raiva coletiva como mercadoria.
O que parecia absurdo em 1976, moldar um apresentador em profeta midiático ou transformar radicalismo político em conteúdo televisivo, hoje ecoa na lógica das redes sociais, dos algoritmos e da cultura da viralização constante.
Da crítica social à profecia cultural
Premiado com quatro Oscars, incluindo Melhor Ator para Finch (o primeiro prêmio póstumo da categoria) e Melhor Roteiro para Chayefsky, Rede de Intrigas acompanhou transformações reais da mídia, o fim de regulações jornalísticas nos EUA, o crescimento de canais opinativos e, décadas depois, a ascensão da comunicação digital baseada em engajamento.
Reassistido em 2026, o filme impressiona pela precisão temática e pela sensação desconfortável de familiaridade. A televisão deu lugar à internet, os âncoras viraram influenciadores e o debate público passou a competir com métricas de audiência em tempo real. O mundo imaginado por Howard Beale não chegou, ele apenas mudou de plataforma.
Cinquenta anos depois, Rede de Intrigas deixa de ser um clássico do cinema político para assumir oo status de obra premonitória. O que antes parecia exagero dramático hoje soa como diagnóstico cultural. O filme continua funcionando como espelho, e talvez como alerta, de uma era em que informação, espetáculo e poder se tornaram praticamente indistinguíveis.