“Viva a música autoral brasileira.” A frase dita por Tulipa Ruiz durante sua apresentação no Tiny Desk Brasil, nesta terça-feira (17), foi além de um comentário espontâneo, soou como um manifesto artístico que resume sua trajetória e identidade musical.
Com um timbre inconfundível e uma interpretação marcada por nuances e inflexões próprias, Tulipa transforma a voz em mais um instrumento dentro da banda. Mas a singularidade da artista vai além da performance: como compositora, ela imprime nas canções a mesma inventividade que define sua presença no palco.
Nascida em Santos, Tulipa cresceu em meio à música. Filha do guitarrista e jornalista Luiz Chagas e irmã do produtor Gustavo Ruiz, seu principal parceiro criativo, ela iniciou sua trajetória profissional nas áreas de design e ilustração, após formação em Comunicação e Multimeios. A virada veio em 2010, com o lançamento de Efêmera, álbum que já apresentava uma artista com identidade consolidada. Desde então, acumulou cinco discos e reconhecimentos importantes, incluindo um Grammy Latino com Dancê (2015).
Para a apresentação no formato intimista do Tiny Desk Brasil, inspirado na série original da NPR e produzido pela Anonymous Content Brazil, Tulipa revelou que o maior desafio foi definir o repertório. A escolha resultou em um equilíbrio entre faixas recentes e músicas que acompanham sua trajetória desde o início, com apoio direto de Gustavo Ruiz na curadoria das cinco canções do set.
A formação da banda foi pensada para oferecer novas camadas sonoras às composições. A inclusão de vibrafone e metais trouxe uma “nova paleta de cores”, como explica Gustavo. “O vibrafone tem uma riqueza harmônica que preenche o ambiente de forma única”, destacou. O resultado foi tão bem recebido que já inspira planos de uma possível turnê no formato.
A proposta foi revisitar as músicas sob outra perspectiva. Tulipa destacou o impacto do vibrafone na releitura de canções como “Só Sei Dançar Com Você”, que ganhou novos contornos sonoros. “Parece que sempre esteve ali”, comentou, ao falar sobre a experiência de redescobrir a própria obra.
Outro destaque foi a nova abordagem de “Efêmera”, agora com influência do Rocksteady, gênero jamaicano que antecede o reggae. Segundo Gustavo, a ideia surgiu de forma natural nos ensaios e encontrou no Tiny Desk o registro ideal.
O formato do programa também impôs desafios. Sem o tradicional retorno de voz, Tulipa precisou ajustar sua forma de cantar, explorando uma escuta mais sensível e coletiva. “Muda a atenção e deixa tudo mais íntimo. Você curte estar junto dos músicos. Esse é o grande barato do Tiny Desk”, afirmou.
O setlist da apresentação incluiu as músicas Efêmera, Só Sei Dançar Com Você, Novelos, Habilidades Extraordinárias e Proporcional, executadas por uma formação que reuniu Tulipa Ruiz (voz), Gustavo Ruiz (guitarra e violão), Gabriel Mayall (baixo), Samuel Fraga (bateria), Antonio Loureiro (vibrafone), Gabriel Arrais (sax tenor), Francys Silva (trombone), Mariana Oliveira (sax barítono, alto e flauta) e Luizinho Nascimento (trompete e flugelhorn).
No encontro entre intimidade e reinvenção, Tulipa se mostou uma artista que desafia a própria música a cada nova apresentação.