Existe um momento em que a música deixa de ser companhia e passa a ser ruído. Em Panic, o The Smiths entra exatamente nesse ponto de ruptura. A canção vira gesto. Um corte seco na programação previsível, um incômodo que rasga abruptamente. Morrissey canta atravessando a cidade com pressa, irritado, olhando vitrines que já não dizem nada.
A faixa nasce em 1986, numa Inglaterra marcada pelo desencanto. Thatcher no poder, desemprego em alta, juventude sem horizonte claro. O rádio, que deveria ser refúgio, entrega distração vazia. Daí vem o refrão quase infantil, repetido como um mantra nervoso. “Hang the DJ”. Não como literalidade, mas como símbolo. Um pedido para interromper a anestesia coletiva.
Johnny Marr costura tudo com uma guitarra insistente, sem precisar gritar. Um riff circular, quase obsessivo, como aqueles pensamentos que não saem da cabeça quando algo está errado e você ainda não sabe nomear. Há ecos de glam rock, de T. Rex, mas também uma secura pós-punk que recusa qualquer conforto.
Lá no fundo, Panic conversa com uma tradição literária britânica que sempre flertou com o desconforto. Um pouco de Orwell na vigilância invisível do cotidiano, um pouco de Wilde na ironia elegante que disfarça a raiva. É o pop como crítica, como desconstrução do próprio entretenimento.
Décadas depois, a canção ainda encontra lugar. Talvez porque o rádio tenha mudado de forma, mas não de função. A saturação continua, o barulho também. E a vontade de desligar tudo, por alguns minutos, segue como um impulso legítimo.
No fim, Panic não resolve nada, e é justamente por isso que funciona.