Há artistas que acompanham o tempo. Outros ajudam a defini-lo. Herbert Vianna pertence claramente ao segundo grupo. Ao completar 65 anos, nesta segunda-feira, 4, sua trajetória se confunde com a própria história do rock nacional moderno, especialmente a partir dos anos 80, quando o Brasil urbano começava a encontrar a própria linguagem sonora.
À frente do Os Paralamas do Sucesso, Herbert ajudou a criar uma ponte improvável entre o rock, o reggae, o ska e a música brasileira. Enquanto a cena de Brasília, com Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude, construía um discurso mais direto e político, os Paralamas surgiam com uma sofisticação rítmica que deslocava o eixo do rock nacional. Ainda assim, havia respeito mútuo. Herbert era visto como um músico completo, um compositor que pensava além da urgência punk, sem nunca perder o senso de canção.
Existe também um lado menos óbvio, quase subterrâneo, de sua influência. Herbert foi uma espécie de catalisador de cenas. Seu olhar ajudou a batizar e impulsionar nomes como Biquini Cavadão, Titãs e Engenheiros do Hawaii, atuando como elo entre diferentes geografias do rock brasileiro. Um elemento que unificava a arte de tocar e conectar sons.
O acidente de ultraleve, em 2001, poderia ter encerrado essa história. Não apenas pela gravidade física, mas pelo impacto simbólico. A imagem de um artista que sempre foi movimento, corpo, energia, subitamente interrompido. E ainda assim, Herbert seguiu. Voltou aos palcos, às gravações, à composição. Reconfigurou sua presença sem perder a identidade, mesmo com sequelas físicas e emocionais. Poucos momentos na música brasileira carregam um peso tão silencioso quanto esse retorno.
Depois disso, sua obra ganhou outra camada. Não se trata mais apenas de música, mas de permanência e insistência. De uma forma muito particular de continuar existindo artisticamente mesmo quando o corpo impõe limites.
O peso de Herbert Vianna e dos Paralamas na história do rock brasileiro é difícil de medir porque está em toda parte. Está na mistura de gêneros que hoje parece natural. Está na liberdade estética que muitas bandas assumem sem precisar justificar e na ideia de que a música nacional pode ser, ao mesmo tempo, sofisticada e popular.
No fim, a pergunta inevitável: é possível contar a história do rock nacional sem falar de Herbert Vianna? Talvez seja possível tentar. Mas seria uma narrativa incompleta, com lacunas onde deveria haver música.