O cansaço do gênero de super-heróis não é falta de personagens interessantes, é a escassez de risco. E é justamente arriscando tudo na contramão do óbvio que Spider-Noir se consolida como uma das surpresas mais arrebatadoras do streaming neste ano. Ao despir a mitologia do Homem-Aranha de suas cores vibrantes, piadinhas juvenis e do peso exaustivo de multiversos, a série do Prime Video entrega uma crônica policial densa, estilosa e profundamente humana. Assistir à produção na sua versão original em preto e branco é como folhear uma daquelas velhas revistas pulp achadas em um sebo, com o papel amarelado, o cheiro de fumaça e a história instigante.
O grande trunfo da narrativa está na escolha de focar na desilusão. O Ben Reilly de Nicolas Cage não carrega o otimismo clássico de Peter Parker. É um homem quebrado pelo tempo, pela Grande Depressão e pelos traumas da guerra. Cage, que sempre equilibrou o genial e o excêntrico na sua carreira, encontra aqui o tom perfeito. Ele canaliza a amargura dos grandes detetives do cinema clássico, entregando um vigilante cansado que prefere resolver seus problemas com um diálogo afiado ou um soco bem dado em um beco escuro a dar piruetas acrobáticas entre arranha-céus.
Os vilões, reimaginados como gângsteres desprovidos de uniformes espalhafatosos, transformam Nova York em um tabuleiro de xadrez moral onde ninguém é totalmente inocente.
Ao final dos seus 8 episódios, Spider-Noir deixa claro que seu maior superpoder foi a liberdade criativa. A produção de Phil Lord e Christopher Miller não tenta vender o próximo filme do cinema, mas sim honrar o gênero noir com um respeito estético impecável. A iluminação low light, as sombras cortando os rostos dos personagens e a trilha sonora de jazz melancólico criam uma atmosfera sufocante e irresistível.
É uma série sofisticada, cult na medida certa e que prova que, às vezes, para renovar um herói, é preciso primeiro deixá-lo envelhecer no escuro.
⭐⭐⭐⭐⭐ (5/5)