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O menestrel de sarjeta e seus bonecos de cera
O debute esquecido de David Bowie em 1967 e o charme de um gênio antes de inventar o próprio mito.
Por Redação Rádio VB
Publicado em 01/06/2026 06:00
Música
David Bowie estreava há 61 anos com álbum homônimo (Foto: Divulgação)

Muito antes de despencar do espaço carregando a melancolia cósmica de Major Tom, ou de riscar o rosto com o raio do glam rock, David Bowie foi um rapaz comum chamado David Jones que tentava, com um misto de desespero e ingenuidade, descobrir quem diabos ele deveria ser no palco. Sessenta e um anos nos separam daquele 1º de junho de 1967, o dia em que o mundo ignorou solenemente o lançamento de seu álbum de estreia homônimo. E, honestamente? Há uma beleza crua e absolutamente fascinante nesse fracasso inicial.

Olhar para David Bowie (o disco) hoje não é buscar as raízes do camaleão, mas sim flagrar um jovem artista tateando no escuro de uma Londres que efervescia psicodelia, enquanto ele insistia em olhar para o passado teatral britânico.

"Não havia poeira estelar ali. Havia o cheiro de mofo dos palcos de music hall e a fumaça de pubs cinzentos."



O cabaré psicodélico da Deram Records


Esqueça as guitarras cortantes de Mick Ronson ou os sintetizadores gélidos da fase Berlim. Sob a produção de Mike Vernon e lançado pelo selo Deram, o disco é uma colcha de retalhos estranha, por vezes desconfortável, mas irresistivelmente autoral. É um pop barroco moldado por arranjos de sopro que parecem saídos de uma banda de coreto municipal que tomou o LSD errado.


Bowie ali não era um deus exilado, mas, sim, um cronista de subúrbio. Ele cantava sobre o isolamento social, a infância perdida e personagens excêntricos com uma theatricalidade herdada diretamente de seu mestre de mímica, Lindsay Kemp, e do cancioneiro de Anthony Newley.

Faixas de Destaque A Atmosfera O Que Ela Nos Diz
"Rubber Band" Uma marcha fúnebre/militar tocada por metais melancólicos. Mostra o flerte de Bowie retrospectivo, rindo da própria ruína amorosa com um sotaque marcadamente londrino.
"The Laughing Gnome" Lançada na mesma época (embora um single avulso que assombra o cânone do álbum), traz diálogos acelerados com um gnomo. O puro suco do nonsense britânico. Uma bizarrice camp que a crítica odeia, mas que revela o descompromisso de quem ainda não tinha uma reputação a zelar.
"Silly Boy Blue" Uma balada densa, influenciada pelo budismo tibetano que o jovem David tateava na época. É onde o gênio finalmente pisca para o ouvinte. Há uma grandiosidade melódica aqui que antecipa o drama que ele aperfeiçoaria anos mais tarde.

O silêncio antes do raio


O disco foi um fiasco retumbante de vendas. No mesmo dia em que o álbum chegou às lojas, os Beatles lançavam Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. A competição era injusta, o zeitgeist estava em outro lugar. Enquanto o quarteto de Liverpool redefinia o futuro da música pop com cores lisérgicas, Bowie estava preso em uma Londres vitoriana imaginária, cantando sobre coveiros e garotos solitários.


Mas o que torna esse registro de 1967 tão cultuado atualmente é justamente o seu status de "rascunho rejeitado". Ele nos lembra que a genialidade não nasce pronta. Duas primaveras depois, em 1969, a gravidade finalmente cederia com "Space Oddity". O menestrel de sarjeta entenderia que o teatro do absurdo funcionava melhor se ambientado nas estrelas.


Celebrar os 61 anos desse álbum não é fingir que estamos diante de uma obra-prima injustiçada, mas sim brindar ao direito de errar, de soar estranho e de ser deliciosamente imperfeito antes que o mundo te force a ser um ícone.

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