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Música da noite: a engrenagem da ausência
"Isso" mostra a crueza industrial e o niilismo estético no coração dos Titãs.
Por Redação Rádio VB
Publicado em 22/06/2026 19:31
Música
Isso permanece como um monumento à vulnerabilidade sem maquiagem (Foto: Reprodução)

O desconforto cirúrgico que pulsa em Isso é um torpedo fatal. A faixa evita se apoiar no peso óbvio das guitarras distorcidas do rock de arena e mira a precisão fria de uma engrenagem que gira no vazio. A sonoridade, despida de excessos, evoca o pós-punk mais introspectivo e o rock alternativo de garagem, em que o minimalismo instrumental serve de moldura para uma crueza quase teatral. É o som do concreto urbano, feito para ecoar em salas de luz baixa e mentes superlotadas.


Liricamente, a canção opera em um expressionismo cortante, e o que não é dito pesa tanto quanto as palavras pronunciadas. A repetição obsessiva e as constatações secas sobre a banalidade do sofrimento criam uma atmosfera de melancolia cínica. Os Titãs conseguem a proeza de transformar a inadequação e o vazio existencial moderno em uma poesia minimalista, quase matemática, que arrasta o ouvinte para um transe incômodo e, ainda assim, estranhamente magnético.


No ecossistema do rock nacional, Isso permanece como um monumento à vulnerabilidade sem maquiagem. A faixa abraça o absurdo do cotidiano com uma sofisticação sóbria. É uma obra essencialmente agridoce e autoral, perfeita para os momentos em que a realidade se impõe sem filtros, consolidando a capacidade da banda de se reinventar nas margens mais densas e interessantes da música urbana.

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