O The Strokes sempre vendeu uma espécie de melancolia chique, mas é em "Someday" que Julian Casablancas e companhia conseguem traduzir perfeitamente o sentimento de sentir saudades de algo que você ainda está vivendo. A faixa opera em um paradoxo pop perfeito, com linhas de baixo limpas, guitarras cruzadas que parecem saídas de uma garagem em Nova York no ano de 1977 e uma bateria que dita o ritmo de uma juventude bêbada da própria alvorada. É um hit que encapsula a ressaca existencial antes mesmo da festa terminar.
A virtuosidade alternativa da música reside na sua aparente simplicidade, funcionando como uma crônica lo-fi sobre o envelhecimento e o distanciamento inevitável dos amigos de bar. Enquanto o videoclipe emblemático coloca a banda bebendo e jogando com lendas como Guided by Voices e Slash em um boteco decadente, a letra entrega uma aceitação quase cínica, mas terrivelmente charmosa, de que os "bons tempos" são apenas uma construção da nossa memória. É o niilismo transformado em uma pista de dança indie.
Ouvir "Someday" é ativar uma máquina do tempo para um período em que o rock de jaqueta de couro ainda parecia perigoso, cru e aristocrático. Ela sobreviveu ao hype da virada do milênio justamente porque não tenta ser grandiosa, prefere o aconchego do analógico e o desalento de um adeus precoce.
Para os órfãos do renascimento do garage rock, a canção continua sendo o manifesto estético de uma galera que sabia que tudo ia mudar, mas preferia apenas continuar dançando.