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Entre deuses e homens, “A Odisseia” reafirma as virtudes de Nolan
Visualmente monumental e narrativamente ousado, o filme preserva a arquitetura do poema, mas troca a ambiguidade do herói antigo por uma consciência moral moderna.
Por Redação Rádio VB
Publicado em 18/07/2026 11:46 • Atualizado 18/07/2026 11:47
Entretenimento
Nolan faz Homero virar um épico sobre culpa, memória e regresso (Foto: Divulgação)

Nota: ★★★★½ (4,5/5)

Atenção: a resenha contém revelações importantes sobre a narrativa e o desfecho do filme.


É tentador dizer que Christopher Nolan encontrou em “A Odisseia” a matéria perfeita para seu cinema. Mas talvez seja mais correto afirmar o contrário. Homero já narrava como Nolan cerca de 2.800 anos antes de o diretor existir. O poema começa in medias res, alterna tempos, transforma lembrança em relato, encaixa histórias dentro de outras histórias e faz do passado uma presença que nunca termina de acontecer.


O diretor compreendeu essa afinidade e evitou reduzir os 24 cantos da obra a uma sequência cronológica de monstros e aventuras. Sua adaptação preserva o movimento descontínuo do original. O passado retorna aos fragmentos, um relato modifica outro e cada memória de Odisseu adquire um sentido diferente conforme o filme avança. Com 173 minutos, “A Odisseia” é imenso, mas raramente parece imóvel. A montagem de Jennifer Lame trata o tempo menos como uma linha do que como um território que pode ser visitado repetidas vezes.


A diferença essencial está na interpretação do protagonista. O Odisseu de Homero deseja o nóstos, o retorno ao lar, mas continua sendo um herói movido pela mêtis, inteligência astuciosa, capacidade de enganar, improvisar e sobreviver. Nolan, por sua vez, converte a viagem em penitência. Seu Odisseu não está apenas impedido de voltar. Em algum nível, ele acredita não merecer regressar.

Essa alteração confere unidade dramática ao filme, mas também modifica profundamente o espírito do poema.

O “homem complicado” de Matt Damon


A tradução de Emily Wilson, publicada em 2017 e assumida por Nolan como referência importante, inicia o poema pedindo à Musa que fale sobre “um homem complicado”. Matt Damon constrói Odisseu exatamente nessa chave. Estrategista, pai, marido, guerreiro, mentiroso e sobrevivente, sem que uma dessas identidades consiga explicar inteiramente as demais.


               Matt Damon e Zendaya em cena clássica de A Odisseiam(Foto: Divulgação)


Fisicamente, Damon não interpreta um semideus. Seu Odisseu carrega cansaço, sal, sujeira e o peso dos mortos. Há força em seu corpo, mas não invulnerabilidade. A dimensão heroica nasce especialmente da capacidade de vencer combates, e também da insistência em continuar quando todos os companheiros já desapareceram.


O ator encontra os melhores momentos quando a habilidade retórica do personagem deixa de protegê-lo. Nolan faz da inteligência de Odisseu uma fonte de culpa. O mesmo engenho que conquistou Troia produziu uma carnificina que ele não consegue acomodar na memória. Sua demora de dez anos para voltar a Ítaca torna-se, assim, uma forma inconsciente de exílio voluntário.


É uma leitura coerente com as obsessões do diretor de “Oppenheimer”. Mais uma vez, Nolan se interessa por um homem brilhante que cria um mecanismo decisivo para vencer uma guerra e depois precisa conviver com aquilo que sua inteligência colocou no mundo.


Homero já era não linear


No poema, Odisseu não aparece imediatamente. Os quatro primeiros cantos formam a chamada “Telemaquia”, centrada na crise de Ítaca e na busca de Telêmaco por notícias do pai. O herói surge apenas no canto V, retido na ilha de Calipso.

Posteriormente, acolhido pelos feácios, ele narra em retrospecto as aventuras vividas desde a partida de Troia. É dentro desse relato que aparecem os lotófagos, Polifemo, Circe, o mundo dos mortos, as sereias, Cila, Caríbdis e o gado de Hélio.

Nolan mantém o princípio, mas altera o dispositivo narrativo. Os feácios e a princesa Nausícaa são eliminados. Em vez de contar sua história durante o banquete na corte do rei Alcínoo, Odisseu precisa recuperar as lembranças diante de Calipso, enquanto se liberta do efeito do lótus.


A mudança economiza tempo e oferece ao filme uma espécie de sessão terapêutica mitológica. Funciona para a proposta de Nolan, embora retire da narrativa uma de suas dimensões centrais, que é a hospitalidade como forma de reconhecimento. No poema, os feácios acolhem primeiro o estrangeiro e somente depois perguntam seu nome. O relato de Odisseu nasce da experiência de ser recebido.


Sem essa passagem, a adaptação preserva o itinerário, mas empobrece parte da reflexão homérica sobre civilização, estrangeiros e acolhimento.


A guerra de Troia vem de outras fontes


O enorme cavalo parcialmente submerso é uma das imagens mais impressionantes do filme. Nolan filma os guerreiros comprimidos dentro da estrutura como homens enterrados antes da própria morte. A sequência combina escala monumental e claustrofobia, aproximando “A Odisseia” de “Dunkirk”.


É importante observar, entretanto, que o poema homérico não dramatiza a entrada do cavalo em Troia. O episódio é mencionado em relatos, especialmente durante o canto de Demódoco na corte dos feácios, mas a versão mais conhecida da armadilha e do papel de Sínon vem principalmente do Livro II da “Eneida”, de Virgílio.


Nolan incorpora esse material e entrega a Sínon, interpretado por Elliot Page, uma função decisiva. O soldado deixa de ser apenas o agente do engano e se torna a consciência dos homens sacrificados por uma estratégia concebida pelos poderosos.

Mais tarde, ao substituir Aquiles por Sínon no mundo dos mortos, o filme explicita sua mudança de eixo. No canto XI de Homero, Aquiles declara que preferiria ser um trabalhador pobre entre os vivos a reinar sobre todos os mortos. É uma das mais poderosas contestações da literatura antiga ao ideal da glória guerreira.

Nolan abre mão dessa passagem para confrontar Odisseu com uma vítima direta de sua inteligência. Dramaticamente, a escolha fortalece o tema da culpa. Literariamente, perde-se a oportunidade de colocar frente a frente a glória breve de Aquiles e a sobrevivência obstinada de Odisseu, duas concepções de heroísmo.


Polifemo e a perda do jogo de palavras


O episódio do ciclope é visualmente aterrador. Nolan concebe Polifemo como uma criatura pesada, primitiva e quase silenciosa. A cena em que ele devora os homens evoca “Saturno devorando um filho”, de Goya, e devolve ao mito uma brutalidade que adaptações familiares costumam suavizar.

A principal perda está na retirada do célebre estratagema linguístico. No poema, Odisseu diz chamar-se Outis, “Ninguém”. Quando o ciclope, já cego, pede ajuda e afirma que “Ninguém” o está atacando, seus semelhantes entendem que não há agressor.

A passagem é muito mais do que uma anedota engenhosa. Ela demonstra que Odisseu vence não pela força de Aquiles, mas pelo domínio da linguagem. Logo depois, porém, seu orgulho destrói a vantagem conquistada. Já em segurança, ele revela o nome verdadeiro, permitindo que Polifemo invoque o pai, Poseidon, e peça que o herói regresse tarde, sozinho e depois de perder todos os companheiros.

Ao eliminar essas conversas, Nolan conserva o horror físico, mas reduz a tensão entre mêtis e hybris, astúcia e arrogância, que define o Odisseu homérico. É uma das alterações menos felizes do filme.

Circe, Calipso e o lótus deslocado


Samantha Morton entrega a interpretação mais perturbadora do elenco como Circe. Sua transformação dos homens em porcos assume contornos de horror corporal, mas também funciona como julgamento moral. Eles não se tornam animais por acaso, a feiticeira apenas expõe a voracidade que já existia.

No poema, Hermes fornece a Odisseu a erva moly, capaz de protegê-lo da magia. O confronto termina em negociação, relação sexual e uma permanência de um ano na ilha. Nolan elimina a dimensão erótica e a intervenção de Hermes, concentrando a passagem na ganância e na degradação dos guerreiros.

Charlize Theron interpreta Calipso por um caminho igualmente revisionista. Na fonte homérica, ela mantém Odisseu em Ogígia durante sete anos, deseja torná-lo seu marido e só o liberta quando Hermes transmite uma ordem de Zeus. O filme a transforma em uma figura menos possessiva, quase uma terapeuta que oferece o lótus como alívio para o trauma.


Esse lótus pertence originalmente a outro episódio, o dos lotófagos, no canto IX. Nolan funde as duas passagens para materializar o esquecimento como droga e escolha. O recurso é elegante, ainda que torne mais branda uma relação que, no poema, envolve uma evidente assimetria de poder.

As sereias dizem aquilo que Odisseu teme


Homero descreve o canto das sereias como uma promessa de conhecimento. Elas sabem tudo o que aconteceu em Troia e tudo o que ocorre sobre a terra. Odisseu, amarrado ao mastro, escuta aquilo que nenhum companheiro pode ouvir sem morrer.


O filme converte essa sedução em revelação psicológica. As vozes dizem ao herói que ele não deseja realmente regressar. A aventura deixa de ser apenas uma luta contra obstáculos externos e passa a expor o desejo secreto de permanecer em movimento.

Essa leitura não está formulada dessa maneira no poema, mas dialoga com a longa tradição posterior de Odisseu. Em Dante e Tennyson, o herói já não é o homem do regresso, mas aquele que não consegue renunciar à viagem. Nolan aproxima essas tradições e encontra uma das ideias mais férteis da adaptação. Ítaca é o destino declarado, mas o mar talvez seja a verdadeira identidade do viajante.


“A lei de Zeus” e a simplificação da xenia


O filme utiliza repetidamente a expressão “lei de Zeus” para explicar o dever de hospitalidade. A formulação não existe dessa forma em Homero, embora derive de um princípio central do poema, que é a xenia, relação sagrada entre anfitrião e hóspede, protegida por Zeus Xenios.

Essa regra organiza boa parte das aventuras. Polifemo é monstruoso não apenas porque devora pessoas, mas porque viola brutalmente a hospitalidade. Os feácios representam seu exercício exemplar. Os pretendentes de Penélope, por sua vez, são maus hóspedes, permanecem além do aceitável, consomem os rebanhos de Odisseu, esgotam o palácio e pressionam a rainha.


Nolan traduz tudo isso para uma fórmula facilmente compreensível. A simplificação ajuda o filme a manter clareza durante quase três horas, mas reduz a complexidade histórica da xenia, que não correspondia exatamente à moderna ideia de “trate os outros como gostaria de ser tratado”. Era uma obrigação ritual, política e religiosa entre casas, com deveres para anfitriões e visitantes.

Ainda assim, é admirável que um blockbuster transforme uma antiga ética da hospitalidade em parte central de seu conflito.


Penélope, Telêmaco e os pretendentes


Anne Hathaway oferece a Penélope uma inteligência silenciosa, feita de espera estratégica e observação. O filme preserva a rainha como alguém que governa o tempo enquanto os homens controlam o espaço. Se Odisseu sobrevive contando histórias, Penélope se ampara adiando uma decisão.


A adaptação mantém o concurso do arco, momento em que a arma funciona como prova de identidade e autoridade. Mantém também o massacre dos pretendentes, ainda que o enquadre com desconforto moral maior do que Homero.

Robert Pattinson está muito seguro como Antínoo. Em vez de interpretar o personagem apenas como um brutamontes, ele lhe dá elegância, ironia e uma convicção aristocrática de que tudo lhe pertence. Sua violência não é focada no excesso de força, mas na certeza de impunidade.


Tom Holland vive Telêmaco como um jovem dividido entre a lembrança idealizada do pai e o homem real que finalmente regressa. A escolha funciona porque o poema também é uma história de formação. O filho precisa adquirir voz pública, viajar, enfrentar os pretendentes e abandonar a posição passiva ocupada no início.

John Leguizamo dá a Eumeu calor, lealdade e humanidade. Zendaya, como Atena, surge de forma seletiva, quase sempre percebida apenas por Odisseu. Nolan preserva a deusa como inteligência orientadora, mas reduz o sistema divino do poema a uma presença mais subjetiva.

O problema das mulheres


O elenco feminino merece um destaque de peso. Anne Hathaway, Samantha Morton, Charlize Theron e Lupita Nyong’o, esta última em papel duplo como Helena e Clitemnestra. Individualmente, as personagens recebem cenas fortes e maior interioridade emocional.

Estruturalmente, porém, o resultado é mais contraditório. A retirada de Nausícaa e da rainha Arete elimina duas figuras importantes na passagem entre o naufrágio e o regresso. A centralidade atribuída à culpa de Odisseu também faz com que Circe, Calipso e até Helena sejam organizadas em função da consciência moral do herói.

O filme suaviza ou elimina aspectos difíceis do poema, como a execução das escravizadas consideradas desleais após a morte dos pretendentes. A decisão evita reproduzir uma violência extrema, mas também retira a possibilidade de confrontar diretamente a desigualdade existente dentro da casa que Odisseu deseja recuperar.

Nolan humaniza as mulheres no nível da interpretação, mas nem sempre lhes devolve o espaço narrativo que a grandiosidade masculina do filme ocupa.


Um espetáculo verdadeiramente físico


“A Odisseia” é o primeiro longa-metragem filmado integralmente com câmeras IMAX. Nolan e o diretor de fotografia Hoyte van Hoytema utilizam o formato para algo mais interessante do que simplesmente ampliar paisagens.


O mar vai além de um cartão-postal azul. É escuro, mineral, hostil e indiferente. As ondas possuem peso, as embarcações parecem frágeis, e cada travessia transmite a sensação de que aqueles homens estão entrando em uma região do mundo ainda não explicada por mapas.


A opção por locações e efeitos físicos fornece matéria concreta ao mito. O cavalo de Troia parece pesado porque de fato é. Os corpos demonstram esforço para movê-lo. As construções queimam com calor perceptível, e os navios enfrentam água real. Mesmo as criaturas fantásticas compartilham esse princípio tátil.


        O Cavalo de Troia retratado em A odisseia (Foto: Divulgação)


A fotografia encontra beleza na solidão, mas nunca deixa que ela se torne confortável. O gigantismo da tela reduz os homens diante do oceano, invertendo a lógica usual do épico heroico de quanto maior o enquadramento, menor parece Odisseu.

A música de Ludwig Göransson trabalha com percussões, pulsações graves e texturas que transformam a viagem em experiência física. Em alguns momentos, a trilha e o desenho de som ameaçam dominar as vozes, um problema recorrente na obra de Nolan. Ainda assim, a pressão sonora possui função dramática. É como se o mar, os deuses e os mortos falassem ao mesmo tempo.


A direção de arte de Ruth De Jong e os figurinos de Ellen Mirojnick não perseguem uma reconstituição arqueológica rigorosa da Idade do Bronze. A estética reúne referências micênicas, gregas posteriores e imagens sedimentadas por séculos de pintura e cinema. Historicamente híbrida, funciona como linguagem mítica.

Um final mais próximo de Nolan do que de Homero


No poema, Odisseu recupera o palácio, reencontra Penélope por meio do segredo da cama construída ao redor de uma oliveira e retoma o governo de Ítaca. Quando as famílias dos pretendentes buscam vingança, Atena intervém e impõe a paz.


A narrativa ainda aponta para outra viagem. Tirésias profetiza que Odisseu deverá caminhar para o interior carregando um remo até encontrar pessoas que não conheçam o mar. Ali, deverá oferecer sacrifícios a Poseidon.


Nolan cria um desfecho diferente. Odisseu não reassume plenamente o trono, ele entrega Ítaca a Telêmaco, e parte para o oeste com Penélope, decidido a honrar os companheiros mortos.

A mudança é bela e emocionalmente eficaz, mas transforma o sentido do nóstos. Em Homero, regressar significa restaurar a casa, o casamento, a autoridade e a ordem social. Em Nolan, voltar não basta. O herói precisa renunciar ao poder e reparar moralmente o passado.

É uma conclusão nitidamente moderna, moldada por trauma de guerra, responsabilidade individual e redenção. Homero provavelmente reconheceria os nomes e os acontecimentos, mas talvez estranhasse um Odisseu tão arrependido de ser ele mesmo.

Veredito


“A Odisseia” não é uma tradução literal de Homero, nem deveria ser. É uma interpretação poderosa que preserva a estrutura descontínua, os grandes episódios, a inteligência narrativa e a tensão entre viagem e regresso, enquanto reorganiza tudo ao redor da culpa.

Suas maiores virtudes estão na escala física, na montagem, no uso do tempo e na decisão de tratar o mito como experiência humana, não como desfile de criaturas digitais. Seus principais limites aparecem quando a necessidade de oferecer uma consciência moral moderna simplifica ambiguidades essenciais do poema.


O Odisseu homérico é fascinante porque pode ser admirável e terrível sem pedir desculpas ao leitor. Nolan sente necessidade de julgá-lo, traumatizá-lo e finalmente redimi-lo. O resultado talvez seja menos grego, mas é profundamente coerente com o autor de “Oppenheimer”, “Dunkirk”, “A Origem” e “Interestelar”.

É um filme sobre monstros, deuses e mares desconhecidos, mas seu verdadeiro tema é anterior a todos eles: o medo de descobrir que, depois de vinte anos de ausência, o homem que retorna já não cabe na casa que passou tanto tempo tentando reencontrar.


Nota: ★★★★½ (4,5/5)

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