Muito antes de os aplicativos de streaming transformarem as playlists em parte da rotina, Paulo Miklos já selecionava as músicas que ajudariam a contar sua história. Na adolescência, ele pegava escondido as fitas cassete usadas pelo pai para estudar e gravava canções tocadas no rádio. Depois, passou a escolher suas faixas preferidas entre os discos disponíveis em casa.
Décadas mais tarde, essas recordações formaram a base de Coisas da Vida, primeiro álbum da carreira de Miklos dedicado completamente à função de intérprete. O projeto reúne 11 músicas associadas a diferentes momentos de sua trajetória pessoal e artística.
O disco funciona como uma espécie de autobiografia musical. O repertório atravessa gêneros, épocas e universos aparentemente distantes, aproximando Rita Lee, Criolo, Adoniran Barbosa, Cazuza, Sérgio Sampaio, Beto Guedes, Walter Franco, Paulo Diniz e o grupo de axé As Meninas.
“Quero compartilhar com você uma playlist afetiva”, escreveu Miklos no manifesto de apresentação do trabalho. Segundo o artista, cada escolha está vinculada a uma memória, uma história ou uma passagem marcante de sua vida.
De ouvinte a intérprete
Conhecido por sua longa trajetória nos Titãs, além dos trabalhos no cinema e da carreira solo, Miklos sempre manteve uma relação próxima com a interpretação. Durante os anos na banda, era comum que os companheiros escrevessem músicas e o convidassem para assumir os vocais.
Em Coisas da Vida, essa característica ocupa definitivamente o centro do projeto. Livre da obrigação de apresentar composições próprias, ele se entrega às canções de outros autores e procura construir uma identidade particular para cada uma delas.
O tratamento musical também distancia o álbum de uma simples coletânea de releituras. As faixas receberam arranjos com cordas e sopros, além de uma atmosfera dramática que amplia a carga emocional do repertório. A proposta foi criar novos ambientes sem apagar a essência das obras originais.
Para Miklos, essa capacidade de oferecer outro significado a uma música representa a principal força de um intérprete. No álbum, as experiências acumuladas ao longo da vida orientam a voz e ajudam a estabelecer novas leituras para canções já conhecidas pelo público.
Canções ligadas a momentos pessoais
Parte do repertório remete diretamente à juventude do artista. Uma música de Beto Guedes, por exemplo, o faz recordar um show no Guarujá ao lado da namorada da época, quando os dois ainda estudavam. Já “Quero Voltar pra Bahia”, de Paulo Diniz, foi uma das primeiras canções que aprendeu a tocar no violão.
Há também lembranças bem-humoradas. Em um encontro com Chitãozinho e Xororó nos bastidores de um espetáculo, Miklos experimentou o chapéu de Chitãozinho. O episódio rendeu uma brincadeira repetida até hoje pela dupla: depois de colocar o acessório, ele nunca mais teria sido o mesmo.
O álbum ainda recupera a forte ligação do cantor com Rita Lee. Na adolescência, Miklos acompanhava apresentações da artista em São Paulo e mantinha um pôster dela na porta do armário. A homenagem reaparece no disco com uma interpretação conduzida por uma orquestração de Otávio de Moraes.
“Xibom Bombom” e o retorno após o coma
Uma das escolhas mais inesperadas do projeto é “Xibom Bombom”, sucesso lançado pelo grupo As Meninas em 1999. A presença da faixa está relacionada a um dos momentos mais delicados da vida de Paulo Miklos.
Em 2024, o artista enfrentou um grave problema de saúde, precisou ser internado e intubado, além de passar por um coma induzido. Ao recuperar a consciência e ser desentubado, ainda sob efeito dos medicamentos, começou a cantarolar espontaneamente o refrão do hit de axé.
Inicialmente, a filha acreditou que ele apenas balbuciava palavras sem sentido. Dias depois, ao assistir à música em um programa de televisão, a família identificou o que Miklos tentava cantar. A canção passou, então, a representar para o artista uma espécie de celebração do retorno à vida.
A escolha também rompe com qualquer expectativa de que um ex-integrante dos Titãs precisaria se limitar ao rock. Em Coisas da Vida, o critério não é o gênero musical, mas a ligação emocional construída com cada obra.
Entre Adoniran, Criolo e Cazuza
A relação de Miklos com Adoniran Barbosa aparece na versão de câmara de “Saudosa Maloca”. O cantor já havia mergulhado no universo do compositor paulista ao interpretá-lo no cinema, experiência que exigiu o aprendizado de seus gestos, expressões e de uma maneira muito particular de falar.
A São Paulo cantada por Adoniran encontra no álbum a metrópole contemporânea de Criolo em “Não Existe Amor em SP”. A composição apresenta uma cidade marcada pela solidão, pela tensão e por uma rotina capaz de consumir seus habitantes.
O encerramento fica por conta de “O Tempo Não Para”, de Cazuza. Na voz de Miklos, a música adquire o peso de quem atravessou décadas de transformações, enfrentou a fragilidade do próprio corpo e continua seguindo em frente.
Ao reunir lembranças da adolescência, encontros artísticos, paixões, referências culturais e uma experiência de sobrevivência, Paulo Miklos transforma Coisas da Vida em um arquivo afetivo aberto ao público. As fitas cassete ficaram no passado, mas o impulso permanece: selecionar músicas, preservar memórias e compartilhá-las com quem estiver disposto a ouvir.