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Amy Winehouse e a voz que não aceitou desaparecer
Cantora deixou apenas dois discos e uma obra que ainda pulsa entre o jazz, o soul e as ruínas da própria intimidade.
Por Redação Rádio VB
Publicado em 23/07/2026 06:00
Música
Amy Winehouse partiu cedo demais, aos 27 anos, mas fixou seu nome no mundo da música (Foto: Reprodução)

Nesta quinta-feira, 23 de julho, completam-se 15 anos da morte de Amy Winehouse. Ela tinha apenas 27 anos quando foi encontrada sem vida em sua casa, em Camden, Londres, em 2011. O tempo interrompido ajudou a criar o mito, mas não explica sua permanência. Amy continua presente porque cantava como se cada verso tivesse sido retirado de uma conversa que ninguém deveria ter ouvido.


Em “Frank”, de 2003, já estavam a inteligência ferina, a dicção jazzística e o desprezo por qualquer verniz sentimental. Três anos depois, “Back to Black” levou essa linguagem para um território mais sombrio. Com produção marcada pelo soul dos anos 1960, o álbum transformou abandono, ciúme, desejo e autodestruição em canções de beleza quase indecente. “Rehab”, “You Know I’m No Good”, “Love Is a Losing Game” e a faixa-título fizeram de Amy uma figura mundial sem retirar dela o sotaque, a ironia ou as fissuras.


A voz parecia antiga, mas não era nostalgia. Havia Billie Holiday, Sarah Vaughan, grupos femininos da Motown e noites em bares de jazz, embora tudo passasse por uma personalidade impossível de domesticar. Amy não imitava o passado, encontrava nele um idioma para narrar o presente. Com apenas dois álbuns de estúdio, abriu caminho para uma geração de cantoras interessadas em recuperar o soul sem abandonar a composição confessional.

Parte de sua história, entretanto, foi consumida como espetáculo. A imprensa acompanhou crises, dependências e relacionamentos com uma crueldade que muitas vezes substituiu a escuta de sua música. A mulher foi reduzida a manchetes enquanto a artista permanecia trabalhando com rimas internas, mudanças de andamento e interpretações que raramente se repetiam da mesma maneira.


Amy morreu por intoxicação alcoólica acidental, após um período de abstinência, conforme confirmou um segundo inquérito realizado no Reino Unido. Sua morte em 23 de julho de 2011 colocou seu nome na história trágica do chamado “Clube dos 27”.


Clube dos 27


O Clube dos 27 não é uma organização, mas uma expressão da cultura popular usada para reunir artistas, sobretudo músicos, que morreram aos 27 anos. A ideia ganhou força após uma sequência de mortes ocorridas entre o fim dos anos 1960 e o início da década seguinte. Não há evidência estatística de que músicos morram com maior frequência nessa idade, mas o “clube” funciona como mito construído em torno de talentos interrompidos precocemente.


Entre seus integrantes mais lembrados estão Robert Johnson, figura fundadora do blues, Brian Jones, guitarrista e um dos criadores dos Rolling Stones, Jimi Hendrix, que reinventou as possibilidades da guitarra elétrica, Janis Joplin, voz visceral do rock, e Jim Morrison, vocalista e poeta do The Doors.


Kurt Cobain entrou nessa cartografia trágica em 1994. A morte do líder do Nirvana ajudou a popularizar a expressão “Clube dos 27”, posteriormente reacendida com a partida de Amy Winehouse.


A coincidência da idade aproxima esses artistas, mas suas obras não precisam da tragédia para sobreviver. Reduzir Amy ao clube seria repetir a violência de transformar uma vida em imagem congelada. Quinze anos depois, o que permanece não é somente a jovem de delineador espesso perseguida por câmeras, mas a compositora precisa, a intérprete imprevisível e aquela voz grave que parecia conhecer a despedida antes mesmo de a música começar.

Amy Winehouse não teve tempo de envelhecer diante do público. Suas canções, porém, continuam envelhecendo, e talvez seja essa a forma mais justa de retirá-la, ao menos por alguns minutos, do Clube dos 27 e devolvê-la ao lugar onde sempre pertenceu, que é dentro da música.

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