Em 27 de julho de 1979, o AC/DC colocou nas lojas um disco que parecia ter sido gravado dentro de um motor superaquecido. “Highway to Hell” não inaugurou o som da banda australiana, mas encontrou sua forma definitiva. Riffs econômicos, bateria sem gordura, refrões talhados para multidões e a voz de Bon Scott circulando entre a malícia, a provocação e o riso de quem já havia ultrapassado qualquer limite razoável.
A chegada do produtor Robert “Mutt” Lange alterou a escala do grupo sem domesticar sua natureza. O que antes soava como uma briga de bar registrada em fita passou a ter contornos maiores, precisão de estúdio e vocação para ocupar estádios. Malcolm Young sustentava a engrenagem com uma guitarra rítmica quase arquitetônica; Angus Young surgia como um curto-circuito de uniforme escolar. Lange apenas iluminou melhor o incêndio.
A faixa-título abre o álbum com um dos riffs mais reconhecíveis do rock. Não há excesso, truque ou virtuosismo ornamental: cada acorde está exatamente onde precisa estar. A estrada mencionada na música era menos uma fantasia demoníaca do que o retrato das turnês exaustivas enfrentadas pela banda durante os anos 1970. O inferno era o trajeto, os hotéis, o desgaste e a insistência em tocar todas as noites.
O restante do disco mantém a temperatura. “Girls Got Rhythm” carrega desejo e balanço; “Walk All Over You” avança como uma máquina pesada; “Touch Too Much” transforma tensão sexual em refrão irresistível; “Shot Down in Flames” encontra humor na rejeição; e “If You Want Blood (You’ve Got It)” resume a disposição do AC/DC para entregar tudo sem pedir delicadeza em troca. No encerramento, “Night Prowler” reduz a velocidade e deixa uma sombra incômoda atravessar o estúdio.
“Highway to Hell” levou o AC/DC definitivamente ao mercado norte-americano, alcançou o 17º lugar na parada de álbuns dos Estados Unidos e tornou-se o primeiro trabalho do grupo a vender mais de um milhão de cópias no país. Foi também o primeiro disco da banda produzido por Mutt Lange.
A celebração, no entanto, carrega uma ausência impossível de ignorar. Este foi o último álbum de estúdio gravado com Bon Scott, morto em fevereiro de 1980, aos 33 anos. O sucesso mundial chegou no instante anterior à ruptura. Por isso, ouvir o disco hoje produz uma estranha combinação de euforia e despedida: Scott parece cantar como se a noite fosse interminável, enquanto a história já conhece seu amanhecer.
Quarenta e sete anos depois, “Highway to Hell” continua funcionando porque não depende da nostalgia. O álbum permanece físico, insolente e direto. É música para ser sentida antes de ser analisada, de preferência com o volume acima do aconselhável e qualquer promessa de bom comportamento abandonada na beira da estrada.