Carly Simon escolheu a própria voz para explicar o silêncio dos últimos anos. Em uma carta aberta publicada nesta segunda-feira (27), a cantora e compositora norte-americana revelou que foi diagnosticada com a doença de Parkinson e contou como as limitações físicas e emocionais alteraram sua rotina.
Aos 83 anos, a artista deixou claro que não pretende permitir que a enfermidade resuma sua existência. “A doença pode mudar sua vida sem se tornar toda a sua vida”, escreveu no relato divulgado pela revista People.
Os primeiros sinais apareceram durante a recuperação de três cirurgias de substituição articular, realizadas em razão de artrite nos dois joelhos e em um dos quadris. Quando as dificuldades de mobilidade se agravaram, deixando Simon sem conseguir se levantar do sofá ou caminhar sem ajuda em determinados momentos, a família percebeu que o problema não estava restrito ao pós-operatório.
Depois de uma avaliação na Mayo Clinic, veio o diagnóstico de Parkinson. A cantora passou a conviver com rigidez, fadiga e oscilações na disposição, além de adaptar a rotina ao tratamento.
A apatia como adversária
No relato, Carly Simon afirma que o aspecto mais difícil da doença não tem sido o tremor ou a limitação dos movimentos, mas a apatia. Ela descreve uma espécie de desconexão entre a vontade e a capacidade de participar da vida, como se o impulso necessário para ler, cantar, escrever ou simplesmente levantar tivesse desaparecido temporariamente.
A artista também enfrentou um carcinoma basocelular no rosto. O tipo de câncer de pele foi removido cirurgicamente, mas o procedimento afetou sua aparência e aumentou o desconforto com exposições públicas. A soma dos problemas de saúde ajuda a explicar o afastamento que vinha despertando preocupação entre os admiradores.
Música interrompe período de imobilidade
Foi o trabalho que começou a modificar esse estado. Entre cirurgias, consultas e adaptações, Simon retornou ao estúdio para concluir “Comes in Waves”, seu primeiro álbum formado inteiramente por canções originais desde “This Kind of Love”, de 2008.
Com lançamento marcado para 14 de agosto, o disco reúne 12 faixas construídas a partir de composições recentes e ideias guardadas por anos. O primeiro single, “Howl”, já está disponível.
O projeto teve a participação dos filhos Ben e Sally Taylor, do casamento da artista com James Taylor. Ben contribuiu como músico, compositor e produtor, enquanto Sally participou dos vocais e da criação visual associada ao trabalho.
Também estão no álbum colaboradores antigos, como Paul Samwell-Smith e Frank Filipetti. O repertório inclui ainda uma das últimas gravações de John Forté, músico e produtor morto antes da conclusão do projeto.
Uma carreira atravessada por clássicos
Carly Simon surgiu no início dos anos 1970 e recebeu o Grammy de Artista Revelação por seu primeiro álbum. Pouco depois, transformou “You’re So Vain” em um dos grandes enigmas sentimentais da música popular norte-americana.
Sua trajetória também inclui “Nobody Does It Better”, tema do filme de James Bond “O Espião Que Me Amava”, e “Let the River Run”, composta para “Uma Secretária de Futuro” e vencedora do Oscar de Melhor Canção Original.
Em 2022, Simon foi incluída no Rock and Roll Hall of Fame como intérprete, reconhecimento concedido a uma obra marcada pela escrita confessional e por uma perspectiva feminina que ajudou a mudar a canção popular de seu tempo.
“Comes in Waves” evita chegar como uma despedida ou tentativa de transformar a doença em narrativa edificante. É o registro de uma artista que admite as limitações, mas se recusa a desaparecer dentro delas. Carly Simon continua escrevendo, cantando e imaginando, ainda que, ocasionalmente, precise negociar com um sofá fundo demais.
Assista abaio ao clipe de Coming Around Again, um dos grandes sucessos da arreira de Carly Simon.