Em 4 de agosto de 1980, John Lennon e Yoko Ono iniciavam em Nova York as sessões de “Double Fantasy”. Para Lennon, era o fim de um silêncio fonográfico de cinco anos, período em que havia trocado a engrenagem da indústria musical pela criação do filho Sean e por uma rotina doméstica distante do antigo Beatle público.
O disco nasceu como uma conversa entre duas vozes. As faixas de John e Yoko se alternam, respondem umas às outras e expõem um relacionamento sem a obrigação de parecer perfeito. Afeto, desgaste, desejo, ciúme e reconciliação dividem o mesmo espaço, e por isso o subtítulo original, “A Heart Play”, virou uma peça encenada dentro do casamento.
Lennon reaparecia menos interessado em recuperar a juventude do rock do que em cantar a meia-idade. “(Just Like) Starting Over”, “Woman” e “Watching the Wheels” falam de recomeços, companheirismo e da escolha de abandonar a corrida pela aprovação pública. Já “I’m Losing You” rompe a superfície serena e deixa entrar a insegurança.
As músicas de Yoko, recebidas com resistência por parte da crítica da época, oferecem o contraponto mais inquieto do álbum. Em vez de simples participações, elas revelam outra perspectiva da relação e impedem que “Double Fantasy” se transforme em um monólogo sentimental de Lennon.
Lançado em 17 de novembro de 1980, o trabalho ganhou um sentido impossível de separar da morte do músico, ocorrida poucas semanas depois. A tragédia converteu um disco sobre continuidade em documento de despedida, embora suas canções tenham sido gravadas olhando para o futuro, não para o fim.
Quarenta e seis anos depois do primeiro dia de gravação, “Double Fantasy” continua guardando essa contradição. É o som de um artista disposto a começar outra vez, justamente quando ninguém sabia que o tempo estava terminando.