Dolores O’Riordan completaria 55 anos neste domingo, 6 de setembro. Nascida em Limerick, na Irlanda, ela surgiu nos anos 1990 com uma voz impossível de confundir, delicada por um instante, cortante logo depois. Não cantava apenas as palavras, dobrava sílabas, alongava vogais e fazia do sotaque uma assinatura.
À frente do The Cranberries, Dolores escapou do lugar reservado às vocalistas dóceis do pop alternativo. Em “Linger”, expôs a vulnerabilidade sem parecer indefesa. Em “Dreams”, converteu o encantamento amoroso em vertigem. Já em “Zombie”, deixou a guitarra pesada carregar uma indignação que sua interpretação tornava ainda mais urgente.
Sua presença tinha algo de contraditório e, por isso, profundamente humano. A figura pequena no palco escondia uma força vocal imensa, enquanto as canções alternavam intimidade doméstica, conflitos políticos, fé, culpa e desejo de liberdade. Mesmo nos refrões mais conhecidos, havia sempre uma sombra atravessando a melodia.
Dolores morreu em 15 de janeiro de 2018, aos 46 anos, mas não ficou aprisionada na nostalgia dos anos 1990. Sua voz ainda chega pelo rádio com a estranheza de algo vivo, indomado e próximo. Aos 55, ela permanece naquele raro território em que uma cantora deixa de interpretar canções e passa a habitar cada uma delas.