Depois de vender mais de um milhão de cópias de “Calango”, o Skank chegou a 1996 diante de um daqueles dilemas que costumam engolir bandas em ascensão: repetir a fórmula até o desgaste ou arriscar uma nova direção quando tudo parecia funcionar. “O Samba Poconé”, terceiro álbum do grupo, escolheu um pouco dos dois caminhos, e fez dessa aparente contradição sua maior força.
Samuel Rosa, Henrique Portugal, Lelo Zaneti e Haroldo Ferretti mantiveram o pulso do ska e do reggae, mas alargaram o repertório de referências. Gravado no estúdio Mosh, em São Paulo, com produção dividida entre a banda e Dudu Marote, o disco incorporou rock latino, percussões brasileiras, metais, acentos de forró e uma inteligência pop cada vez mais evidente.
Não se tratava mais apenas de uma banda mineira traduzindo para o português a influência jamaicana. O Skank começava a inventar um país próprio: urbano, caloroso, um pouco circense e sempre disposto a transformar qualquer assunto em refrão.
O estouro inevitável de “Garota Nacional”
“Garota Nacional”, o principal sucesso do álbum, foi a canção que alterou a escala da banda. O riff de guitarra, o baixo elástico e a voz de Samuel Rosa formaram uma combinação quase impossível de ignorar. A música tocou até se tornar parte da paisagem acústica do país.
A letra, vista três décadas depois, carrega um olhar masculino que envelheceu sob algum desconforto. Musicalmente, porém, a faixa ainda explica por que o Skank dominou o rádio sem soar como fabricação de laboratório. Havia cálculo pop, sem dúvida, mas também havia banda, suor e uma cozinha rítmica funcionando com extraordinária precisão.
O sucesso atravessou o Atlântico, chegou às paradas espanholas e levou o grupo a públicos que não falavam português. A própria banda reconhece “Garota Nacional” como o grande motor da projeção alcançada pelo disco.
Quando futebol virou matéria-prima para o pop
O álbum abre com “É Uma Partida de Futebol”, primeira parceria de Samuel Rosa com Nando Reis. Em vez de tratar o esporte como epopeia solene, a canção reproduz a linguagem das arquibancadas, a ansiedade do torcedor e a coreografia cotidiana de quem acompanha a bola.
É uma música construída com imagens imediatamente reconhecíveis, mas sem a obviedade de um jingle esportivo. Talvez por isso tenha sobrevivido tão bem fora das Copas do Mundo: ela não tenta explicar o futebol; simplesmente pensa e respira como quem está dentro de um estádio.
Na sequência do repertório, “Eu Disse a Ela”, “Tão Seu”, “Os Exilados” e “Poconé” mostram uma banda menos preocupada em defender fronteiras estilísticas. As doze faixas do álbum revelam esse trânsito entre balada, reggae, rock e música latina.
Manu Chao e uma América Latina possível
A presença de Manu Chao em “Zé Trindade”, “Sem Terra” e “Los Pretos” amplia a geografia do disco. Àquela altura ainda associado ao Mano Negra, o músico acrescentou ao álbum uma temperatura latino-americana que combinava perfeitamente com a inquietação do Skank.
Manu Chao reforçava a ideia de uma música de fronteiras porosas, capaz de circular entre Belo Horizonte, Jamaica, Espanha, França e qualquer pequeno circo armado no interior brasileiro.
Essa mistura ajuda a compreender por que “O Samba Poconé” soa mais ousado do que sua enorme popularidade pode sugerir. O disco vendeu aproximadamente 1,8 milhão de cópias, mas nunca se comportou como um produto inteiramente domesticado. A estimativa consolidou o álbum como o maior êxito comercial da discografia do grupo.
Um disco com cheiro de lona e fachada de cinema
O título nasceu de referências aos filmes da Atlântida, aos pequenos circos itinerantes e a figuras como Zé Trindade, Renata Fronzi e Grande Otelo. Poconé não aparece como endereço geográfico exato, mas como imagem de um Brasil profundo, ambulante e misturado.
A capa criada por Gringo Cardia prolonga essa ideia. As pinturas de José Robles, artista ligado aos antigos painéis de fachadas de cinema, dão ao álbum uma aparência de espetáculo popular prestes a começar. Antes mesmo da primeira faixa, o disco já anuncia que não pretende caber em uma única moldura.
Há coerência entre som e imagem: guitarras, metais, tipos populares, cores fortes e personagens parecem pertencer ao mesmo cortejo. “O Samba Poconé” tem algo de parque de diversões montado no meio da cidade, onde referências aparentemente distantes passam a noite dividindo a mesma luz.
O ponto em que o Skank mudou de tamanho
Trinta anos depois, o álbum permanece como o momento em que o Skank deixou de ser apenas uma banda de enorme sucesso e passou a ocupar um espaço particular na música brasileira. Era popular sem pedir desculpas, sofisticado sem ostentar erudição e dançante sem abrir mão da composição.
Samuel Rosa resumiria mais tarde que, naquele trabalho, o grupo brincou com o pop e conseguiu alcançar gente que ainda estava fora de seu público.
Depois viriam “Siderado” e “Maquinarama”, com novas mudanças de rota, melodias mais introspectivas e maior aproximação da psicodelia. Mas foi em “O Samba Poconé” que o Skank aprendeu a falar para multidões sem reduzir seu vocabulário.
Talvez seja esse o segredo de sua permanência. O disco não pertence apenas a 1996, embora carregue aquele ano em cada timbre. Ele ainda soa como uma festa estranha e familiar, daquelas em que o futebol encontra Manu Chao, o reggae conversa com o interior do Brasil e uma guitarra bem colocada faz o país inteiro prestar atenção.