O U2 poderia ter feito outro “War”. Havia público para a bateria marcial, os refrões de punho erguido e a convicção de uma banda que parecia saber exatamente onde queria chegar. Mas “The Unforgettable Fire”, lançado em 1º de outubro de 1984, escolheu um caminho menos previsível. No quarto álbum, Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. começaram a deixar entrar o que ainda não sabiam explicar. Nesta quinta-feira (1º), o disco completa 42 anos.
A primeira parceria de estúdio com Brian Eno e Daniel Lanois, com gravações no castelo de Slane, na Irlanda, foi decisiva para essa mudança. O espaço passou a fazer parte da música: reverberações, camadas de guitarra e sons que permanecem depois de a nota terminar. O U2 descobria quanto uma canção podia dizer deixando alguma coisa em aberto.
Isso se anuncia em “A Sort of Homecoming”. A bateria impulsiona a faixa, mas a guitarra parece flutuar acima dela, enquanto Bono canta como quem tenta alcançar uma lembrança em movimento. Há entusiasmo e estranheza convivendo na mesma gravação. É uma abertura que pede atenção, sobretudo para aquilo que acontece nas bordas.
“Pride (In the Name of Love)” oferece o ponto de contato mais imediato com o U2 de grandes refrões. The Edge constrói uma figura de guitarra que reconhecemos em poucos segundos; a banda inteira trabalha para fazê-la crescer. Dentro do álbum, porém, esse vigor ganha outra dimensão quando colocado ao lado da faixa-título, com seus teclados, mudanças de intensidade e uma melancolia que escapa de qualquer explicação simples.
A força de uma canção que demora a chegar
Em “Bad”, o disco encontra seu centro emocional. O baixo e a bateria sustentam uma insistência quase hipnótica, a guitarra abre pequenos clarões e Bono vai elevando a interpretação até parecer perto do limite. A gravação tem paciência. Cada repetição modifica ligeiramente o que sentimos, e essa demora dá peso ao momento em que a voz finalmente se expande.
Também há prazer nas passagens menos resolvidas. “Promenade” parece terminar quando ainda estamos entrando nela. “4th of July” deixa o ambiente ocupar a escuta. “Elvis Presley and America” leva a indefinição longe o bastante para incomodar: a voz se mistura à textura, e as palavras parecem menos importantes do que o estado de espírito. Nem tudo funciona com a precisão de um single, mas essa irregularidade preserva a curiosidade do álbum.
The Edge é fundamental nesse processo. Sua guitarra cria profundidade com notas relativamente econômicas, repetidas e deslocadas pelo eco. Adam Clayton e Larry Mullen Jr. mantêm o chão firme o suficiente para que os outros se aventurem. Ouvir o disco com atenção revela esse equilíbrio: por baixo de tanta atmosfera, existe uma banda tocando com força.
Quatro décadas depois, ainda há o que descobrir
“The Unforgettable Fire” tem o interesse particular dos trabalhos feitos durante uma mudança de rumo. Em algumas faixas, o U2 já domina a nova linguagem; em outras, ainda experimenta suas possibilidades. Essa hesitação é parte do encanto. O álbum guarda o som de músicos dispostos a perder um pouco do controle para descobrir outra maneira de tocar juntos.
Aos 42 anos, continua sendo um disco para ouvir inteiro, de preferência com tempo. Depois dos grandes gestos, “MLK” encerra tudo numa escala íntima, quase uma canção de ninar. A voz fica ali, amparada por poucos sons. E o ouvinte percebe que a banda capaz de convocar uma multidão também sabia terminar uma conversa em voz baixa.