Em 6 de outubro de 2018, Montserrat Caballé morreu aos 85 anos, em Barcelona. A soprano espanhola deixou uma trajetória que ultrapassa sua passagem pelo universo pop, mas foi ao lado de Freddie Mercury que muitos ouvintes descobriram sua voz. Hoje, oito anos depois, a data convida a revisitar “Barcelona”, o dueto lançado em 1987 que reuniu a cantora e o vocalista do Queen.
Há um prazer quase insolente na grandiosidade dessa gravação. Freddie entra com sua urgência teatral, Caballé responde com uma voz que parece suspender o peso das estações. Os arranjos avançam em ondas, abrindo espaço para o encontro entre os dois. O excesso funciona porque existe entrega. Ninguém parece preocupado em diminuir a própria personalidade para caber na canção.
A parceria nasceu da admiração de Mercury pela soprano e ganhou uma dimensão afetiva que ajuda a explicar sua força. “Barcelona” ficou associada aos Jogos Olímpicos de 1992, mas sua permanência vai além da memória esportiva. O que prende o ouvido é a cumplicidade entre artistas de formações distintas, confortáveis diante de uma ambição musical enorme.
Relembrar Caballé por esse dueto é voltar ao instante em que sua voz atravessou outras salas, outros hábitos, outras coleções de discos. Vale procurar o vídeo, aumentar o volume e acompanhar as expressões dos dois. “Barcelona” pede alguns minutos de atenção inteira e recompensa com aquela rara sensação de que uma canção pode ocupar todo o espaço ao redor.
Vale também revisitar “How Can I Go On”, em que a parceria ganha uma intimidade dolorosa. Freddie canta procurando apoio para continuar, enquanto Caballé envolve essa fragilidade com sua voz, sem apagar o desamparo que atravessa a música.
O piano conduz o encontro, e os dois fazem da pergunta do título uma inquietação que permanece depois da última nota. Um daqueles momentos que pedem silêncio antes de ouvir novamente.