Antes dos estádios e das grandes estruturas de palco, o U2 era uma banda tentando descobrir o tamanho da própria voz. “October”, lançado em 12 de outubro de 1981, completa 45 anos nesta segunda-feira. Seu encanto está nessa procura: quatro músicos com ambição, energia e dúvidas suficientes para deixar as canções um pouco fora do lugar.
Ouvido hoje, o disco parece uma conversa que começou antes de alguém organizar os pensamentos. Bono canta com urgência, The Edge procura caminhos entre guitarra e piano, enquanto Adam Clayton e Larry Mullen Jr. sustentam o movimento. A espiritualidade atravessa o repertório, mas chega acompanhada de inquietação. Há desejo de acreditar e dificuldade para encontrar palavras à altura desse desejo.
As condições de gravação ajudam a entender essa sensação. Produzido por Steve Lillywhite no Windmill Lane, em Dublin, o álbum foi realizado depois de Bono perder suas letras durante a turnê americana. O produtor recordaria a dificuldade de começar o segundo trabalho com o material ainda por resolver. Essa pressão pode ser ouvida como parte da personalidade do disco: frases que parecem procurar uma saída enquanto a música já corre adiante.
“Gloria” abre o álbum com a convicção sonora que falta, por vezes, ao narrador. A guitarra recorta o espaço, o baixo ganha presença e a voz transforma a busca espiritual em impulso físico. É uma das gravações em que o U2 encontra cedo sua habilidade de fazer uma inquietação particular soar como experiência coletiva.
Em “I Threw a Brick Through a Window” e “Fire”, a banda preserva a aspereza do início. Já “Tomorrow” conduz a escuta para um terreno mais sombrio, com uma atmosfera que parece trazer lembranças à superfície. São caminhos diferentes dentro de um álbum que ainda aceita a irregularidade como parte da descoberta.
A faixa-título muda a escala. O piano de The Edge suspende a pressa, e a voz entra com uma contenção rara naquele repertório. “October” encontra sua força no espaço entre as notas: basta pouco para criar a impressão de frio, passagem do tempo e coisas que não conseguimos segurar. É um pequeno intervalo que altera a temperatura do disco inteiro.
O U2 que depois aprenderia a ocupar espaços enormes já aparece ali, mas ainda permite que a hesitação fique exposta. Isso torna o álbum especialmente interessante aos 45 anos. Seus momentos mais vivos preservam o risco de uma banda que ainda podia entrar no estúdio sem saber exatamente o que encontraria.