Há discos que guardam uma época. Outros acompanham quem os escuta, mudando de significado a cada reencontro. “As Quatro Estações”, da Legião Urbana, pertence a essa segunda categoria. Aos 15 anos, pode soar como uma conversa sobre descobertas e incompreensão. Mais tarde, as mesmas músicas passam a falar de responsabilidade, ausência e das dificuldades de cuidar de alguém.
Nesta segunda-feira, 26 de outubro, o álbum completa 37 anos de lançamento. Quarto trabalho de estúdio da banda, chegou às lojas em 1989 pela EMI e se tornou o mais vendido de sua discografia. Seu alcance, porém, encontra uma explicação mais interessante na escuta do que nas estatísticas: poucas vezes o rock brasileiro aproximou tantas pessoas de questões tão íntimas.
Renato Russo canta como quem precisa organizar a própria confusão, mas sabe que nenhuma resposta será suficiente. Há uma tensão permanente entre acreditar e desconfiar, desejar companhia e sentir-se deslocado. É dessa instabilidade que o disco extrai sua força.
O afeto também tem zonas de sombra
A abertura com “Há Tempos” estabelece um clima de desgaste emocional. A interpretação traz urgência, enquanto a música procura algum ponto de sustentação em meio ao desencanto.
A entrada de “Pais e Filhos”, logo depois, aprofunda essa sensação. Os vínculos familiares aparecem atravessados por desencontros, pedidos de atenção e sofrimento.
A familiaridade com “Pais e Filhos” pode esconder sua dureza. Transformada em canto coletivo, a canção corre o risco de ser ouvida apenas como uma mensagem de união. Sua construção é mais incômoda. As vozes e situações sugeridas pela letra expõem a distância entre estar perto e conseguir compreender o outro.
Ouvi-la depois de adulto modifica o lugar de quem escuta. A identificação com o filho incompreendido pode dividir espaço com a percepção dos limites dos pais. O tempo acrescenta perguntas à música.
Em “Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto”, a luminosidade oferece uma pausa. Existe uma disposição para recomeçar, embora ela pareça exigir esforço. Dentro de um álbum tão sensível à fragilidade, a esperança ganha peso justamente porque precisa ser construída.
Desejo, fé e contradição
“Meninos e Meninas” permanece entre os momentos mais expressivos do repertório. O desejo surge em uma linguagem cotidiana, com a naturalidade de quem procura entender os próprios sentimentos. Essa abordagem dá à canção uma dimensão acolhedora: a experiência afetiva pode ser vivida antes de caber em uma explicação definitiva.
Já “Monte Castelo” leva a busca amorosa ao terreno da literatura e da espiritualidade, aproximando Camões e o texto bíblico. A solenidade pode parecer excessiva a determinados ouvidos, assim como algumas formulações de Renato podem soar sentenciosas. O disco comporta esse risco. Sua ambição emocional é grande, e nem sempre procura a discrição.
Ainda assim, a interpretação sustenta a passagem entre referências tão conhecidas. O amor aparece como uma ideia exigente, difícil de conciliar com a experiência concreta de solidão, ciúme e perda que atravessa outras faixas.
“Sete Cidades” e “Maurício” ajudam a devolver essa discussão ao chão dos relacionamentos. Depois das grandes formulações, ficam a falta, a espera e aquilo que uma pessoa não consegue resolver sozinha.
Uma banda que sabe dar espaço às palavras
A força de “As Quatro Estações” também depende da maneira como a música acomoda esse universo verbal. As guitarras de Dado Villa-Lobos criam atmosferas e desenhos que permanecem na memória sem disputar cada instante com a voz. A bateria de Marcelo Bonfá dá movimento e intensidade às mudanças de humor.
Em “Eu Era um Lobisomem Juvenil”, a extensão permite que a inquietação se desenvolva, sem a pressa de chegar ao refrão seguinte. “1965 (Duas Tribos)” traz uma aspereza que impede o álbum de se fechar inteiramente na vida privada. Há violência do lado de fora, e ela invade a experiência individual.
Revisitar o disco inteiro também ajuda a escapar da seleção automática dos sucessos. A sequência aproxima estados emocionais diferentes e revela como a ternura convive com o medo, como a fé se mistura à dúvida e como o desejo pode carregar desamparo.
Aos 37 anos, “As Quatro Estações” ainda encontra ouvintes porque aceita essas contradições. Suas canções permitem cantar junto, mas também suportam uma escuta solitária, atenta ao que antes passava despercebido. Em algum momento, aquela música que parecia explicar a adolescência começa a fazer perguntas sobre a vida adulta. E o disco segue tocando.