Certos lugares parecem existir apenas para uma noite dar errado. O motel de Identidade (2003) é um deles. Isolado por uma tempestade, recebe viajantes que chegam carregando problemas e logo descobrem que a hospedagem será a menor de suas preocupações. Disponível na HBO Max, o filme é a dica para este sábado, sobretudo para quem gosta de acompanhar um mistério com a sensação de que alguma peça foi colocada no lugar errado.
Dirigido por James Mangold, o longa reúne dez desconhecidos, entre eles um motorista de limusine, interpretado por John Cusack, uma atriz vivida por Rebecca De Mornay, um policial encarnado por Ray Liotta e uma mulher em busca de outro rumo, papel de Amanda Peet. Quando os hóspedes começam a morrer, o abrigo vira uma armadilha. Cada informação sobre os presentes pode ajudar a esclarecer os crimes ou apenas tornar a convivência mais perigosa.
Mangold trabalha bem com esse espaço apertado. A chuva reduz o mundo ao estacionamento, à recepção e aos quartos; as portas oferecem uma privacidade frágil, e atravessar o pátio parece exigir uma decisão. O cenário tem algo dos velhos filmes de estrada em que um desvio basta para colocar a vida fora de curso. Aqui, ninguém consegue simplesmente seguir viagem.
Cusack dá ao conjunto um ponto de apoio com sua atuação contida, enquanto Liotta introduz uma autoridade áspera, pouco tranquilizadora. Amanda Peet ajuda a impedir que a história se resuma à contagem de vítimas. Sua personagem preserva desejos e um futuro imaginado mesmo quando a situação se deteriora. Entre eles, a confiança precisa ser improvisada e pode durar menos que uma conversa.
O roteiro aposta alto nas reviravoltas. Há momentos em que o mecanismo fica aparente, especialmente quando coincidências e pistas parecem pedir atenção demais. Ainda assim, o filme sustenta a curiosidade porque entende o prazer de desconfiar. Um gesto banal muda de peso, uma resposta chega tarde, alguém parece saber mais do que deveria.
Vale entrar em Identidade sabendo pouco. Parte de sua força está em observar como a história modifica as regras enquanto o espectador tenta acompanhá-las. Para uma noite de sábado, oferece uma sessão curta, tensa e com assunto para depois dos créditos, quando dá vontade de voltar ao começo e conferir quem, afinal, estava prestando atenção.