“Under Cover of Darkness” é o som de cinco fantasmas elegantes atravessando a névoa neon de Nova York com guitarras que piscam como letreiros quebrados. Há algo de Television no desenho nervoso das cordas, algo de Velvet Underground na melancolia urbana, mas tudo filtrado por aquela displicência quase aristocrática que Julian Casablancas transforma em assinatura nos vocais os Strokes. Não é nostalgia. É uma reencarnação elétrica.
A bateria pulsa com precisão quase punk, enquanto as guitarras duelam em linhas diagonais, como se estivessem rabiscando um mapa secreto da Lower East Side. Casablancas canta com a afinidade de quem já esteve no fundo do poço e voltou só para observar o caos com ironia elegante. A melodia é solar, mas a letra carrega aquele desencanto pós-2000, a sensação de que crescer é uma piada interna que ninguém explicou direito.
O clipe, com sua estética crua e ensaiada ao mesmo tempo, reforça essa dualidade de banda de garagem que sabe exatamente o que está fazendo. “Under Cover of Darkness” é o tipo de faixa que toca às 2h17 da manhã e faz todo mundo acreditar que ainda existe salvação nas frequências médias de uma guitarra bem amplificada. Um hino para quem prefere dançar sob a luz fria da cidade, longe do centro, perto do ruído.