Antes da abolição virar decreto, São Luís já pulsava em pequenos gestos de ruptura. É esse território pouco contado que o curta Moleques decide ocupar. A produção, que estreia na próxima sexta-feira (17), na Praça do Japão, na Liberdade, transforma pesquisa histórica em imagem viva, devolvendo às ruas personagens que durante muito tempo ficaram à margem dos registros oficiais.
Ambientado em 1888, o filme acompanha as chamadas maltas de moleques, grupos formados por crianças e adolescentes negros, entre escravizados, livres e libertos, que circulavam pela cidade com uma energia difícil de conter. Entre correrias, brincadeiras e confrontos, esses jovens construíam, à sua maneira, espaços de liberdade em meio a uma sociedade marcada pela opressão.
A proposta não é apenas reconstituir um período, mas tensionar a forma como ele costuma ser lembrado. Aqui, a infância não aparece como silêncio ou submissão. Surge inquieta, ruidosa, atravessando ruas e incomodando estruturas que insistiam em controlar corpos e movimentos.
Com 16 minutos de duração, o curta foi gravado no Centro Histórico e carrega no próprio elenco a continuidade dessa história. Os atores são jovens do Quilombo Liberdade, que não apenas interpretam, mas reconhecem naquele passado fragmentos de uma herança ainda presente. A experiência, segundo eles, ultrapassa o cinema e se aproxima de um reencontro com as próprias raízes.
A obra nasce a partir da pesquisa do historiador Roberto Pereira, que investiga essas dinâmicas pouco documentadas da vida urbana no período final da escravidão. Ao levar essa narrativa para o audiovisual, o filme amplia o alcance de um tema que, por muito tempo, ficou restrito aos livros e arquivos.
Moleques não tenta organizar o passado em linhas retas. Prefere mostrar seus ruídos, suas contradições e, sobretudo, sua potência. No fim, o que permanece, além da reconstrução de uma época, é a sensação de que aquelas vozes, antes dispersas, ainda ecoam, agora com mais espaço para serem ouvidas.