Há um fetiche quase mítico no rock dos anos 1970 em torno da autoria divina, uma ideia de que hinos imortais nasceram do puro éter criativo. Quando a introdução de Stairway to Heaven foi levada aos tribunais, o que estava em jogo ia além da conta bancária do Led Zeppelin, e esbarrava na própria desmistificação de sua maior catedral sonora.
A acusação de que a lendária progressão dedilhada por Jimmy Page pertencia, na verdade, à instrumental Taurus, da banda psicodélica Spirit, arrastou a psicofonia do rock de arena para a frieza de uma sala de audiências, transformando a canção mais famosa das rádios em um dissectado objeto de estudo.
A ironia mais sofisticada do processo residiu em sua burocracia técnica. Impedidos pelas leis de direitos autorais de tocar as gravações originais no tribunal, os jurados foram submetidos a execuções frias de partituras em papel. Um filtro que despiu o Zeppelin de sua mística de estúdio e o Spirit de seu experimentalismo lisérgico.
No ringue jurídico, a defesa de Page e Plant operou um malabarismo estético considerado impecável. Conseguiu provar que a melancolia descendente daqueles acordes não era um furto, mas um clichê secular, uma herança renascentista e barroca que já flutuava pelo mundo muito antes de o rock pensar em existir.
A vitória final do Led Zeppelin, selada após anos de recursos e reviravoltas, deixou um gosto agridoce na cultura pop. Se por um lado salvou a banda do estigma do plágio definitivo, por outro expôs as entranhas de uma engrenagem que sempre se alimentou das margens.
No fim, o caso Stairway versus Taurus permanece como uma resenha cult sobre a própria natureza da criação musical. Uma lembrança de que mesmo as escadas mais altas para o céu são construídas com tijolos que já estavam jogados pelo chão do passado.
Escute abaixo as duas canções e tire suas próprias conclusões:
A instrumental Taurus da banda psicodélica Spirit
O clássico supremo do Led Zeppelin