Certos filmes falam sobre rock e outros compreendem aquilo que existe ao redor dele, como a expectativa diante de um disco novo, a liturgia dos bastidores, a solidão escondida sob os aplausos e o desejo quase juvenil de pertencer a algum lugar. Quase Famosos, lançado nos cinemas norte-americanos em 13 de setembro de 2000, pertence ao segundo grupo, e aos 26 anos, continua envolto por uma luz dourada, como uma lembrança que talvez nunca tenha acontecido exatamente daquela maneira, mas que ainda assim parece verdadeira.
Inspirado nas experiências do diretor Cameron Crowe como repórter adolescente da revista Rolling Stone, o filme acompanha William Miller, um garoto de 15 anos enviado para cobrir a turnê da fictícia banda Stillwater em 1973. A viagem, inicialmente tratada como uma oportunidade profissional, logo se transforma em educação sentimental. William encontra músicos inseguros atrás das poses, afetos atravessados por conveniências e uma indústria sempre pronta para transformar sonhos em mercadoria.
No centro dessa travessia está Penny Lane. Interpretada por Kate Hudson com uma mistura fascinante de magnetismo e fragilidade, ela rejeita o rótulo de fã e se apresenta como uma “Band Aid”: alguém que está ali pela música. Mas seu discurso de liberdade também funciona como proteção contra uma realidade menos romântica. Penny acredita ocupar um lugar especial naquele universo, enquanto tenta ignorar o quanto pode ser descartável para os homens que admira.
Cameron Crowe ama profundamente o rock, mas não permite que esse amor o torne cego. Quase Famosos celebra discos, guitarras e hotéis em permanente estado de desordem, ao mesmo tempo que desmonta a mitologia construída em torno dos artistas. A fama surge como desejo, vício e mal-entendido. Todos querem ser vistos, embora quase ninguém esteja disposto a se revelar por inteiro.
É nesse ponto que a inesquecível sequência de “Tiny Dancer” deixa de ser apenas uma bela utilização da canção de Elton John. Dentro do ônibus, depois de conflitos e ressentimentos, os personagens cantam juntos e encontram uma breve trégua. Ninguém precisa explicar o que sente: a música fala por todos. Durante alguns minutos, aquela família improvisada volta a acreditar na própria fantasia.
Ver ou rever Quase Famosos neste domingo é retornar a um cinema caloroso, musical e melancólico, interessado menos na fama do que nas pessoas que permanecem à margem dela. Disponível atualmente no Sony One, o filme ainda nos coloca naquele ônibus, entre corações partidos e amplificadores, esperando que a próxima canção consiga organizar tudo aquilo que a vida deixou fora do lugar.