Há um prazer particular em ouvir uma banda escapar do papel que lhe reservaram. Lançado em 3 de outubro de 2000, Warning encontra o Green Day abrindo as janelas de casa. Entram violões, outras cadências e uma disposição para deixar as músicas respirarem. O sexto álbum do trio completa 26 anos com aquele charme dos discos que merecem uma escuta fora da fila dos grandes sucessos. Billie Joe Armstrong, Mike Dirnt e Tré Cool ainda carregavam a inquietação de sempre, mas começavam a descobrir outras maneiras de colocá-la em movimento.
A faixa-título dá o recado com um baixo que parece caminhar pela rua enquanto Billie Joe desconfia das instruções espalhadas pelo cotidiano. Há humor nessa implicância com regras, avisos e comportamentos automáticos. O violão tem presença física, ocupa espaço, sustenta o balanço. Mike Dirnt ganha terreno para desenhar suas linhas, e Tré Cool sabe quando segurar a mão. A banda soa à vontade tocando músicas que dispensam a corrida até o último acorde.
“Minority” transforma o desejo de pertencer aos desajustados numa cantoria coletiva, dessas que funcionam tanto no palco quanto numa mesa cercada de amigos. “Waiting” guarda uma luminosidade quase ingênua, com a melodia acompanhando a expectativa de alguém que acredita estar perto de uma virada. São canções de refrão generoso, feitas por um compositor que conhece o valor de uma boa frase musical. A facilidade com que entram no ouvido às vezes faz esquecer o cuidado com que foram construídas.
O desvio mais saboroso aparece em “Misery”, pequena procissão de personagens condenados, com atmosfera de cabaré e um gosto pelo grotesco que alarga o universo do trio.
Já “Macy’s Day Parade” encerra o álbum num registro íntimo. O cansaço diante das promessas de felicidade pelo consumo encontra uma melodia delicada, quase doméstica. Billie Joe parece cantar perto de quem ouve. É um fechamento que permanece depois que o disco acaba.
Ouvir
Warning hoje permite apreciar essa curiosidade sem cobrar dele a explosão de
Dookie ou a ambição narrativa de
American Idiot. Seu encanto está nas escolhas miúdas, uma levada, um instrumento entrando de lado, um refrão que encontra espaço para crescer. Aos 26 anos, o álbum conserva o frescor de três músicos experimentando possibilidades juntos. E dá vontade de aumentar o volume justamente quando eles decidem tocar mais baixo.