“Heroes” tem cheiro de equipamento quente e madrugada sem sono. Depois de Low, David Bowie voltou a trabalhar com Brian Eno, mantendo a disposição de desmontar a própria música. Gravado no Hansa, próximo ao Muro de Berlim, há 49 anos, o disco contou com a produção de Bowie e Tony Visconti e a guitarra de Robert Fripp. Havia uma banda tocando com força, mas também espaço para sons que pareciam escapar pelas frestas do estúdio.
“Beauty and the Beast” e “Joe the Lion” avançam aos solavancos, com uma energia quase elétrica demais para os alto-falantes. A faixa-título cresce nesse ambiente, e a voz ganha urgência, a guitarra se prolonga, o desejo de dois amantes assume proporções enormes. As aspas de “Heroes” cabem bem nesse heroísmo precário, de quem pede apenas algum tempo junto e sabe que até isso pode ser difícil.
O outro lado do álbum exige uma escuta menos apressada. “Sense of Doubt” pesa sobre a sala, “Moss Garden” suspende o movimento, e “Neuköln” deixa uma inquietação difícil de acomodar. Quando “The Secret Life of Arabia” devolve o balanço, o corpo quase estranha.
Ouvir o disco inteiro, após quase meio século, ainda rende essa descoberta. Por trás da canção que o mundo aprendeu a cantar, Bowie deixou corredores escuros, portas abertas e bastante assunto por resolver.