Em uma série povoada por personagens que mentiam para sobreviver, dominar ou enriquecer, Walter White Jr. guardava uma relação mais direta com a verdade. O filho adolescente que admirava o pai também seria capaz de confrontá-lo quando aquela imagem se desfizesse. RJ Mitte deu rosto e voz a essa passagem dolorosa. O ator faleceu nesta segunda-feira (12), aos 34 anos, no Texas, conforme confirmação de seus representantes.
Sua presença em “Breaking Bad” tinha uma importância que nem sempre dependia do tempo em cena. Enquanto Walter White, interpretado por Bryan Cranston, justificava seus crimes em nome da família, o personagem de Mitte lembrava ao público que essa família tinha sentimentos, expectativas e limites próprios. Nas conversas domésticas, nos silêncios e nos conflitos, aparecia a distância crescente entre o homem que Walter dizia ser e aquele em que havia se transformado.
Conhecido também como Flynn, Walter Jr. permitiu que Mitte participasse das cinco temporadas da produção, exibida entre 2008 e 2013. O trabalho tornou seu rosto reconhecido mundialmente e deu visibilidade a um ator com paralisia cerebral interpretando um personagem que também vivia com a condição. Fora da tela, ele utilizou essa projeção para defender os direitos das pessoas com deficiência.
Nascido em Jackson, no Mississippi, Roy Frank Mitte III recebeu o diagnóstico aos três anos. Em 2006, mudou-se com a família para Los Angeles e começou a buscar espaço na televisão. Pequenas participações antecederam o papel que definiria sua carreira diante de milhões de espectadores.
A experiência pessoal ajudou a construir Walter Jr., mas havia trabalho de interpretação nessa proximidade. Mitte adaptou a fala e utilizou muletas para representar uma manifestação da paralisia cerebral mais acentuada que a sua. A autenticidade vinha acompanhada de técnica, observação e escolhas de atuação. Mais tarde, seu currículo incluiria filmes como “The Recall” e “The Oak Room”, além da série “Guardiões da Justiça”.
Seu legado também está na possibilidade de reconhecer uma pessoa com deficiência dentro de uma narrativa sem reduzir sua existência ao diagnóstico. Walter Jr. tinha desejos, ressentimentos, senso de humor e opiniões. Podia ser carinhoso, impaciente ou incisivo. Essa amplitude fazia dele um integrante da família White com vida própria, mesmo cercado pela dimensão cada vez maior dos crimes do pai.
Ao confirmar a morte, os representantes destacaram a contribuição de Mitte para a conscientização sobre a deficiência e a inclusão. Ele também atuou junto a organizações como a United Cerebral Palsy e a Shriners Children’s, levando sua defesa da representatividade para além do trabalho como ator.
Mitte deixa a noiva, Kennedy Suarez, com quem havia anunciado o noivado em 2025. As circunstâncias da morte estão sob investigação, e seus representantes pediram respeito à privacidade da família.
Para quem acompanhou “Breaking Bad”, permanece a lembrança daquele jovem à mesa, tentando compreender uma casa que se tornava irreconhecível. RJ Mitte ajudou a dar peso humano às consequências das escolhas de Walter White. Sua atuação ficará ligada a esse olhar de filho — primeiro cheio de confiança, depois atravessado pela descoberta de que amar alguém não obriga a aceitar o que essa pessoa faz.
Apoio emocional: o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito e sigiloso pelo telefone 188, disponível 24 horas por dia.