Há uma intimidade particular nas canções de Benito di Paula. Mesmo quando a interpretação cresce e o piano pede passagem, parece haver alguém contando uma história de perto. Uma decepção, uma lembrança de Carnaval, um amor que ainda ocupa espaço. Benito cantava esses assuntos com a disposição de quem aceita se envolver por inteiro, sem economizar na alegria ou no sofrimento.
Sua partida, neste domingo (18), aos 84 anos, encerra a presença física de um artista que fez do sentimento uma linguagem popular. O cantor, compositor e pianista estava em São Paulo e enfrentava um câncer havia aproximadamente um ano, segundo sua assessoria.
Nascido Uday Vellozo, em Nova Friburgo, ele começou a cantar em hotéis e boates antes de estabelecer sua trajetória em São Paulo. Talvez venha dessa escola de palco a percepção de que uma música precisa encontrar alguém do outro lado. Em suas gravações, há sempre esse movimento em direção ao ouvinte: a voz que insiste numa frase, a entrada do piano, o refrão que abre espaço para outras vozes.
O samba ao alcance das mãos
Benito deu ao piano um lugar muito próprio dentro do samba. O instrumento sustentava o balanço, comentava a melodia e acompanhava a temperatura da interpretação. Em torno dele, o compositor reuniu canções que podiam circular entre a festa e a solidão sem parecer deslocadas em nenhuma das duas.
“Retalhos de Cetim” guarda bem essa capacidade. A expectativa do desfile e a ausência de quem se esperava encontrar convivem numa história pequena, reconhecível, dessas que a memória conserva com detalhes. O Carnaval continua, mas alguém faz falta. Benito sabia o tamanho que uma ausência pode adquirir no meio de tanta gente.
Em “Do Jeito Que a Vida Quer” e “Ah! Como Eu Amei”, o próprio modo de dizer já oferece uma pista de seu repertório afetivo. Há entrega, orgulho ferido, aceitação difícil. Sua voz dava corpo a sentimentos que muita gente prefere deixar pela metade numa conversa.
Uma obra feita para circular
Ao longo das décadas, suas músicas encontraram abrigo em festas, rodas de amigos, programas de rádio e apresentações em que o público já chegava sabendo o que cantar. Essa familiaridade pode tornar um repertório quase invisível de tão presente. Basta, porém, ouvir com atenção para perceber a personalidade do compositor por trás de cada canção.
A homenagem da Águia de Ouro no Carnaval de São Paulo, em 2025, devolveu sua trajetória à avenida. Para um artista tão ligado ao imaginário do samba, havia beleza nesse encontro entre a biografia e a festa coletiva.
Nos palcos, a parceria com o filho Rodrigo Vellozo, também cantor e pianista, acrescentou uma dimensão familiar à continuidade de sua música. Dividir o instrumento, as entradas e os silêncios era também uma maneira de compartilhar a própria história.
Benito deixa canções que dispensam cerimônia para voltar. Alguém toca os primeiros acordes, outra pessoa reconhece, uma terceira começa a cantar. Em pouco tempo, aquela história particular pertence à mesa inteira.