Há uma diferença entre transformar a dor em assunto e encontrar uma forma artística para ela. É nessa passagem que se concentra a proposta de Mesmo Caminho, do Avesso, álbum de Fábio Allex lançado em 17 de outubro de 2025. Ao reunir onze composições de sua autoria, com produção de Memel Nogueira, o artista organiza um percurso de desgaste, reconhecimento e reconstrução, no qual os conflitos amorosos dividem espaço com a solidão e a necessidade de pertencer.
O título oferece uma boa entrada para esse universo. Recuperada de “Sem-Dita”, faixa do disco De Volta ao Passado que Nunca Vivi, de 2016, a expressão sugere uma revisão da experiência. Voltar ao caminho pelo avesso implica reconhecer o que sustentava sua aparência: os nós, os remendos e as marcas que o cotidiano costuma esconder. O álbum ganha interesse quando dá a essa ideia uma dimensão concreta, aproximando a reflexão das situações comuns.
“Autossugestão” estabelece o impulso de reorganização interior. As referências ao método de Émile Coué e à poesia de Mario Quintana introduzem a busca por alguma direção depois da crise. Na construção descrita para a faixa, as guitarras surgem em camadas e o arranjo cresce gradualmente, fazendo da recuperação um processo, com etapas e hesitações.
Essa disposição encontra resistência em “Impulso”, voltada às feridas antigas que acabam transferidas para uma relação. O contraste entre considerar alguém extraordinário e fazê-lo se sentir insuficiente sintetiza uma violência cotidiana reconhecível. É um dos pontos em que a escrita de Allex se mostra mais incisiva: a observação de um comportamento diz mais do que uma explicação abstrata sobre responsabilidade afetiva.
O afeto ganha força nos pequenos detalhes
“Três Marias” desloca o foco para a cumplicidade. A aproximação entre linguagem coloquial, imagens celestes e intimidade doméstica permite que a canção encontre personalidade. A fronha como lugar de entrega é uma imagem especialmente feliz porque dá corpo ao sentimento. O amor passa a ter textura, proximidade e um espaço onde pousar.
Esse recurso também favorece “Sempiternamente”. Roupas esquecidas, horários perdidos e datas que escapam à memória situam a convivência em um terreno humano. As referências a Skinner e Simone de Beauvoir ampliam a ambição da letra, embora tragam um desafio: a elaboração intelectual precisa preservar a espontaneidade da canção.
É uma tensão que atravessa o projeto. O desejo de atribuir densidade psicológica e filosófica às composições pode enriquecer suas leituras, mas também corre o risco de explicar demais aquilo que uma imagem já comunica. Allex parece encontrar seu melhor caminho quando deixa o pensamento nascer da experiência, sobretudo nos detalhes aparentemente menores.
“O Momento” e “Reencontro de Almas” exploram uma expressão amorosa mais afirmativa. A primeira trabalha a revisão de uma trajetória a partir de um encontro; a segunda encontra uma formulação sensível na aceitação de que, em outro tempo, aquelas pessoas ainda não seriam quem são. Há maturidade nessa percepção, que reconhece o tempo como parte constitutiva do vínculo.
A solidão encontra uma saída coletiva
“Quarentena” amplia a escala do sofrimento. O isolamento deixa de ser apenas uma condição íntima e passa a carregar a memória de uma experiência social. A combinação de violão e sanfona, conforme apresentada no material do álbum, acompanha essa exposição mais despojada, em que cantar se torna uma maneira de lidar com a dor.
“Gente Tola” abre outra janela para o exterior. Sua sátira à hipocrisia introduz movimento e alguma leveza em um repertório bastante voltado à análise dos próprios sentimentos. A repetição de tipos sociais favorece a comunicação imediata, embora possa tornar a crítica previsível quando os personagens se resumem aos defeitos apontados.
É em “Maranhão de Reencontros” que o disco encontra sua ampliação mais significativa. A cultura popular oferece uma resposta à solidão que o romance, sozinho, não poderia oferecer. Zabumbas, matracas e referências ao bumba meu boi aproximam a reconstrução individual de uma experiência de comunidade.
Nesse ponto, o pertencimento maranhense assume uma função central no argumento do álbum. O sujeito também se refaz ao reconhecer sons, celebrações e memórias que compartilha com outras pessoas. Essa passagem dá ao trabalho uma identidade que ultrapassa o vocabulário mais genérico da superação.
Recomeçar ainda inclui o medo
A presença de “Sem-Número” perto do encerramento impede uma resolução excessivamente confortável. Depois das possibilidades de acolhimento, o pensamento volta a se embaralhar. A ansiedade reaparece, sugerindo que o equilíbrio conquistado continua sujeito a oscilações.
“Reiniciar”, com participação de Yanne Santos, irmã de Fábio Allex, encerra esse percurso pela incorporação das marcas. A imagem da pele como arquivo da experiência dá consistência ao recomeço: seguir adiante exige reconhecer o que aconteceu, inclusive aquilo que deixou cicatrizes.
Uma leitura crítica do conjunto também pede cautela com a ideia de uma “cura definitiva”. A riqueza da sequência está justamente nas recaídas, nos contrastes e na convivência entre confiança e dúvida. Transformar cada faixa em etapa obrigatória de um tratamento reduziria a abertura dessas canções.
Mesmo Caminho, do Avesso encontra sua proposta mais expressiva nessa reconstrução incompleta. Entre o pensamento que pesa, o afeto que acolhe e a festa que devolve o indivíduo ao coletivo, Fábio Allex procura uma linguagem para continuar. O avesso interessa porque conserva as costuras à vista.
Ouça o álbum na íntegra AQUI